Ofanato Penning Side, Londres, 30 de Maio de 1989.

Martin Christopher White consultou o relógio pela décima vez aquela manhã. Dez horas e quarenta e cinco minutos. Ele já estava esperando a mais de meia hora. Como era possível que demorassem tanto para atender uma pessoa naquele estabelecimento. Ele ainda tinha um milhão de coisas para fazer naquele dia. Ainda tinha que passar no apotecário do Beco Diagonal para comprar alguns tubos de ensaio, recipientes de lacre mágico e ingredientes para uma nova poção. Martin estava tentando desenvolver uma nova espécie de “gnomicida” para dar um jeito nos gnomos que vinham destruindo seu jardim.

Ele queria obter uma solução que afastasse os diabinhos de seu jardim, sem fazer-lhes mal. Contudo, o máximo que conseguira até o momento era uma gosma grudenta que, a principio, mantinha os gnomos presos ao chão. Como eram criaturinhas muito espertas, não só descobriram um jeito de desgrudar-se da meleca pegajosa, como também desenvolveram um jogo, onde formavam bolotas de meleca e atiravam de volta no bruxo. Martin desconfiava que o gnomo que conseguisse acertar seu nariz ganhava o jogo.

De repente, a porta da sala de espera se abriu e uma mulher de meia idade, morena, com o cabelo preso bem firme em um coque adiantou-se, pigarreando. Ela usava roupas formais – uma saia cor bege, com cardigã creme e sapatos pretos de salto alto. Tinha uma expressão de poucos amigos.

– Sr. White? – disse ela.

– Sim. – ele respondeu.

– Meu nome é Miranda McCallister. O senhor poderia me acompanhar, por favor?

Sem pestanejar, Martin levantou-se e caminhou até a porta por onde a mulher havia acabado de sair. A porta levava à uma pequena sala, onde havia duas poltronas giratórias transpostas por uma mesa. Fechando a porta logo após a entrada de Martin, a mulher gesticulou para que ele se sentasse. Em seguida, caminhou até a outra extremidade da mesa e sentou-se também. Atrás dela, uma imensa estante, abarrotada de livros, tomava toda a extensão da parede. Miranda continuava em silêncio, com uma expressão de poucos amigos. Martin pensou que aquela mulher deveria ser a diretora do estabelecimento. Um pouco nervoso, ele não parava de esfregar as palmas das mãos suadas na superfície da calça jeans. Miranda parecia ocupada com uma pequena pilha de papéis sobre a mesa, que ela analisava minuciosamente.

– O senhor sabe por que está aqui, Sr. White? – ela perguntou, sem tirar os olhos dos papéis.

– Não, senhora.

O “aqui” a que a Miranda se referia era o tal estabelecimento, isto é, o Orfanato Penning Side, em Londres. A que Martin tivesse conhecimento, ele jamais encaminhara qualquer solicitação de adoção ao orfanato, e tão pouco conhecia qualquer pessoa que trabalhasse naquele lugar. Fora uma surpresa e tanto receber a intimação judicial que exigia que Martin comparecesse ao Orfanato o mais breve possível, para tratar de assunto de seu interesse, como dizia a carta. E ali estava ele, agora, completamente desconfortável diante daquele mulher de aparência ranzinza e severa, sem ter a menor ideia do que o aguardava.

– O senhor tem irmãos, Sr. White?

– Tenho um irmão, sim.

– Thomas John White, não é isso?

– Correto.

A menção do nome do irmão o incomodou um pouco, mas Miranda não pareceu perceber.

– Muito bem. – ela continuou – E a quanto tempo tempo o senhor não vê seu irmão, Sr. White?

Martin não respondeu. Ele sabia exatamente quando fora a última vez que vira o irmão. Foi no final de Agosto de 1983, durante um jantar em família. Todos comiam em silêncio, como se tivessem acabado de voltar do enterro de um ente querido. E Martin sabia que era assim que seus pais haviam passado a pensar nele, como um filho morto, desde que recebera a carta – aquela maldita carta – aos onze anos de idade. A carta que o convidava a ingressar na instituição mágica de ensino mais prestigiada do Reino Unido, a Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts.

Para qualquer um que tivesse o mínimo de bom senso e a mente livre das amarras do preconceito, a descoberta de uma criança excepcional seria uma grande alegria. Mas para os White, conservadores e religiosos, aquilo era uma abominação, o mesmo que saber que o filho fora diagnosticado com uma doença contagiosa mortal. Martin ainda se lembrava do dia em que um homem com roupas exóticas chegara a sua casa para conversar com os White sobre a Escola de Magia. Lembrava-se perfeitamente de como os pais reagiram, o olhar de repulsa que lançaram ao homem e como o trataram.

O único que não o julgou mal fora Thomas, seu irmão mais novo. Para ele aquele garotinho de 8 anos, ter um irmão bruxo era tão fantástico quanto descobrir um tesouro enterrado no fundo do quintal. E, quando Martin decidiu seguir com o estranho para a tal escola de magia, foi entre as lágrimas de Thomas que o pai, John White, expulsou o filho mais velho de casa, negando a Martin o direito de regressar ao lar no fim do período letivo. E como se já não bastasse, John ainda deixara claro que não iria contribuir com uma única moeda para sustentar aquela abominação. O estranho, que mais tarde revelou-se professor de Hogwarts, garantiu aos pais – e, em especial, ao pequeno Martin – que não se preocupassem, afinal, a escola tinha um fundo de apoio monetário justamente para auxiliar alunos em situações como aquela.

E assim, Martin despediu-se do irmão mais novo e da mãe, que não dissera uma única palavra durante todo o episódio. Mas Martin não guardava mágoas em seu coração, pois sabia que sua mãe havia sido educada a obedecer o marido e segui-lo de toda e qualquer forma. Mas ele lamentou profundamente o fato de não poder mais ver o irmão e, por um instante, quase vacilou em sua decisão de seguir em frente, mas algo em seu coração lhe dizia que aquela a decisão certa e que mais tarde, de alguma forma, o destino se encarregaria de unir os caminhos dele e do irmão uma outra vez.

Por diversas vezes, Martin buscou retomar os laços com sua família. Escreveu inúmeras cartas ao irmãos novo e à mãe. Algumas vezes, até escrevera ao pai, também, contando-lhes como era o mundo novo que ele havia descoberto e, sobretudo, sobre a falta que sentia de casa, de estar com sua família, mas jamais obteve resposta. A escola não permitia a presença de alunos durante o período de férias e, por isso, Martin acabou indo morar com um de seus professores – o mesmo que lhe entregara a carta de Hogwarts e lhe contara sobre sua verdadeira condição. E quando tentou voltar para a casa de seus pais, descobriu com choque e tristeza que os White haviam se mudado para longe, sem deixar qualquer informação sobre seu paradeiro, na esperança de que o filho “morto” jamais viesse assombrá-los. Martin nunca mais viu o irmão, ou a mãe, e tão pouco o pai.

– Alguns anos, pra dizer a verdade. – ele respondeu, por fim.

– Entendo.

Mirando pareceu considerar a informação por um breve instante, antes de prosseguir. Ela levou os olhos aos papel e, respirando profundamente, como se tomasse uma decisão ergueu os olhos para o homem à sua frente.

– A questão, Sr. White, é o que o seu irmão está morto.

Por um breve segundo, o coração de Martin parou. Mas aquele segundou pareceu se estender por uma vida, a vida que ele nunca teve ao lado do irmão. Como em um encantamento, todas as lembranças que ele tinha de Thomas vieram à sua memória. Os passeios de bicicleta, os acampamentos de verão na floresta, a ocasião em que o pai lhe ensinara a pescar. E Martin pensou em tudo o que perdeu ao fazer sua escolha, em tudo o que deixara para trás. Não vira Thomas crescer, não vira o homem que ele havia se tornado e o que havia conquistado na vida. E agora, através de uma completa estranha, Martin descobria que jamais teria a chance de recuperar esse tempo. Surpreendeu-se ao constatar as lágrimas escorrendo por seu rosto. Era como se seu coração estivesse, de repente, sem um pedaço.

– Ele faleceu há cerca de três anos. – continuou Miranda, estendo um envelope à Martin – O avião em que ele e a esposa viajavam caiu durante uma intensa tempestade. Eu lamento informar, mas o corpo nunca foi encontrado.

Então Thomas tinha uma esposa. Havia se casado. Quanto da vida do irmão querido Martin havia perdido?

Ainda em choque, Martin vislumbrava a manchete de um jornal trouxa, onde os destroços de um avião podiam ser vistos em uma densa floresta. Logo abaixo, as fotos dos que haviam morrido no acidente. Martin não demorou para reconhecer, com olhos marejados, as feições de um homem de olhos azuis e cabelos castanhos, bem parecido com seu pai. Ao seu lado, uma belíssima mulher de olhos castanhos e um sorriso alegre. A legenda logo abaixo dizia “os renomados pesquisadores Thomas e Susan White.”

Sem aguentar olhar por mais tempo, Martin devolveu o jornal à Miranda e, fungando profundamente, enxugou os olhos com as costas das mãos. Ele evitou encarar a mulher a sua frente por alguns segundos, permanecendo em silêncio, como se tentasse se anestesiar de toda aquela dor repentina antes de seguir em frente.

– Sr. White – ela continuou – Eu não pedi que o chamassem aqui apenas para comunicar sobre esse triste incidente.

Por um segundo, Martin pareceu surpreso. Ergueu os olhos para Miranda, sentindo que suas sobrancelhas arqueavam-se.

– Acontece que seu irmão tem um filho.

Martin endireitou-se na cadeira, inclinando o corpo para frente, como se estivesse se esforçando para ouvir o que Miranda dizia. De repente, toda aquela conversa começava a fazer sentido.

– O nome dele é Henry e, atualmente, tem seis anos de idade. – Miranda continuou – Ele está sob nossos cuidados desde os três anos de idade, quando o acidente aconteceu. Na ocasião, não sabíamos da existência de qualquer parente vivo que pudesse assumir a guarda do garoto. Foi somente depois de muita procura que finalmente obtivemos informação sobre o seu parentesco com Thomas White.

– Eu… Eu não sabia que Thomas havia tido um filho – foi o que Martin conseguiu responder.

Por alguns segundos, Miranda permaneceu em silêncio, apenas observando. Era como se ela estivesse dando um tempo para que a mente daquele homem encaixasse as peças de toda aquela trama, até que ele mesmo se conduzisse ao final.

– Sr. White, nossa missão nesta instituição não é apenas amparar para crianças e jovens órfãos, mas garantir que eles venham a ter uma família, um lar que possam vir a reconhecer como seu.

– Sim, eu entendo. – ele respondeu.

– Então – ela continuou, colocando cada palavra cuidadosamente – o senhor compreende por quê eu pedi que o chamassem aqui, hoje?

Era óbvio. Se o garoto não tinha mais nenhum outro parente vivo que pudesse assumir sua guarda, e de repente eles encontravam um irmão perdido do pai do menino…

– Sim, senhora.

– Muito bem. – ela consentiu.

Miranda folheou os papéis que mantinha em mãos e, tirando do meio deles uma pequena fotografia, estendeu-a à Martin, que a tomou em mãos. Era impressionante como o garoto se parecida com Thomas, exceto pelos olhos, que eram iguais aos de Susan. Tinha o mesmo sorriso caloroso e gentil que Martin vira na fotografia dela, no jornal. Ele ficou encarando a foto pelo que pareceu um longo momento, e se surpreendeu não com as novas lágrimas que escorriam por seu rosto, mas pelo sorriso que havia brotado em seus lábios.

– O senhor gostaria de conhecê-lo? – Miranda perguntou.

– Sim, por favor.

– Acompanhe-me, por favor.

Miranda McCallister levantou-se e, adiantando-se, abriu a porta para que o homem a acompanhasse. Os dois voltaram pela sala de espera, tão vazia como quando Martin ali estivera esperando. Passaram um vasto corredor com janelas amplas, que davam visão ao pátio central do orfanato, onde uma duzia de crianças corria e brincava. Aproximando-se, Miranda e Martin pararam a certa distância dos pequenos.

– Henry, querido. – ela chamou, a voz de repente bem mais gentil e atenciosa do que minutos antes – Venha até aqui, por favor.

Ao ouvir seu nome, o garoto largou a bola com a qual vinha se divertindo com alguns amiguinhos e correu ao encontro da diretora.

– Henry, eu gostaria que você conhecesse o Sr. White.

– Olá, Sr. White. – ele respondeu, sorrindo para o homem.

Martin não conseguiu dizer absolutamente nada. Apenas caiu de joelhos diante do garoto e, tomando-o em seus braços, abraçou-o de tal forma que pode sentir o o coraçãozinho do menino batendo rápido de encontro ao seu peito. Um pouco tímido, Henry deixou que os bracinhos retribuíssem o gesto. E finalmente, depois daquele primeiro contato, Martin o soltou de leve, colocando as mãos em seus ombros e olhando fixo em seus olhos. Por um breve segundo, foi como se estivesse olhando para Thomas – o irmão que ele havia perdido.

– Você pode me chamar de Martin.

Henry sorriu, e foi como se um raio de sol atravessa seu rosto de encontro à Martin. Ele ainda não fazia ideia de quem era aquele desconhecido, que o abraçara de forma tão calorosa. Mas algo em seu coração lhe dizia que era um homem bom, alguém em quem ele poderia confiar, alguém que o levaria para casa e o ajudaria a encontrar seu lugar no mundo. Quanto a Martin, depois de tantos anos, ele sentiu que finalmente seu coração havia recuperado o pedaço perdido. E dessa vez, ele se encarregaria de fazer todas as escolhas certas, para que aquele pedacinho de seu passado jamais se perdesse outra vez, mas que florescesse sempre, daquele dia em diante.

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Monitoria de Poções – final – A Loba vence as cobras

Olá. Meu nome é Daniela Lupin, tenho 14 anos, obviamente sou estudante e, modéstia à parte, sou uma aluna bastante aplicada. Minha vida poderia ser considerada normal se: 1) eu não fosse uma bruxa (aprendiz, na verdade) e 2) eu não fosse filha adotiva de um lobisomem. Aliás, se não fosse por esse último fato mencionado, minha vida na Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts seria um pouco menos traumática. Não! Não há nada de errado com o meu papis! Ele é maravilhoso e perfeito como ele é e eu não poderia desejar outro melhor! O problema é que ano passado, ele veio como convidado do nosso diretor lecionar Defesa Contra as Artes das Trevas. E desde então, a velha rixa entre ele e o nosso professor de Poções veio à tona. Não por causa do papis, claro, porque ele é um lord, mas por causa do Morcegão. O Morcego odeia o meu pai. E né, me detesta por tabela. Não bastasse o fato de ele já não ir muito com a minha bela e marota carinha por causa das minhas amigas, que ele também detesta, ainda tive que agüentar mais essa. Pelo menos eu não sou da Grifinória, nem tenho o sobrenome da minha amiga Zoreia, senão eu realmente seria eleita o saco de pancadas oficial de Hoggy. Não sobraria nada da implicância do morcego velho nem para Harry Potter, anotem o que estou dizendo.

Bom, vou parar de enrolar e ir direto ao assunto. A monitoria de Poções. É, eu sei, parece uma maluquice sem tamanho eu tentar a monitoria depois de tudo isso que eu expliquei ali em cima. Mas eu não podia deixar passar, afinal é a minha matéria favorita, apesar do professor não ajudar muito. Eu simplesmente não poderia permitir que essas besteiras me afetassem e me impedissem de tentar. Muito provavelmente estou assinando minha sentença de ser o elfo doméstico das masmorras até o fim dos meus dias nesta escola, mas essas questões são apenas bobagens frente às possibilidades para nosso futuro, não? É o que eu penso.

Enfim, depois da prova ministrada pela professora McGonagall, eu me saí muito bem. Respondi todas as questões teóricas com rapidez e a prova prática foi moleza. Lógico que fiquei curiosa para saber o que houve com o chatonildo do morcego ensebado, mas não posso reclamar, posso? Assim foi muito melhor para mim, já que eu era a única aluna não sonserina naquela masmorra. E então, no dia seguinte à prova, saiu o resultado no mural do saguão de entrada da escola. Fui ao céu e voltei quando vi meu lindo nominho no topo da lista! Passei! A vaga é minha! Uhu!

Mas claro que a coisa não acabou por aí. Assim que Snape chegou de sua misteriosa ausência, ele trepou nas tamancas por causa do resultado. Fiquei sabendo por fontes ultra confiáveis (aham, eu juro que não vou falar que foi o meu diretor, porque ele nuuuunca faria isso!), que o morcegão reclamou, esbravejou, acusou os professores de complô contra seus alunos e exigiu uma revisão das provas por uma banca examinadora externa. Que todas as provas foram submetidas a uma nova correção, que a prova prática foi anulada por insistência do nosso professor xiliquento e que um novo resultado seria divulgado. E assim aconteceu. E mais uma vez, eu passei. Só mudou a ordem dos nomes abaixo do meu. Eu continuo dentro. Como só existe uma vaga, apresento-lhes a mais nova monitora de Poções de Hogwarts: Daniela Lupin.

Eu sei que agora, depois de todo esse rolo, essa vitória vai parecer mais um ato masoquista do que qualquer outra coisa, uma vez que se antes ele já tinha seus motivos para ficar no meu pé, agora então, nem quero pensar no que vai ser. Mas estou feliz, porque era o que eu mais queria, então parabéns pra mim! Quero festa de comemoração! Alô marotada, que horas vamos fazer nossa guerra de panquecas com direito a dancinha da vitória e briga de travesseiros?

E que venham os dias enfurnados nas masmorras!

Monitoria de Poções – parte 3 – Dani Lupin vai à luta

Daniela Lupin seguiu apressada pelos corredores iluminados apenas por alguns archotes flamejantes, em direção às masmorras do professor Snape. Ela, anteriormente bastante segura de si, começava a sentir uma pontinha de ansiedade. Afinal, ela não era uma das alunas mais queridas do amado idolatrado salve salve mestre das Poções. Ainda assim, continuou caminhando rumo ao seu objetivo, chegando finalmente às portas da sala de aula. Ela deu um suspiro profundo e as abriu. Não estava atrasada, mas tinha consciência de que estava chegando em cima do horário marcado. Um pequeno mar de cabeças se virou em sua direção. Todos os candidatos já estavam a postos aguardando a chegada do professor. Todos, sem exceção, eram da Sonserina.

Dani se dirigiu de maneira bem altiva rumo à uma carteira livre na primeira fileira, bem defronte à mesa do professor. No trajeto, ela pode notar os olhares curiosos de alguns candidatos. Outros a observavam com um sorriso escancarado de deboche, e alguns ainda, a encaravam com visível ar de contrariedade pela audácia da corvinal, por ela se candidatar a um cargo que deveria ser de um deles por direito. Lupin deu de ombros, ignorando as reações dos concorrentes, tomando finalmente o seu assento. Não tardou muito e ela sentiu uma bolinha de papel lhe atingir a cabeça. Virou-se para trás para ver quem fora o retardado que implicara com ela, e ouviu uns risinhos irritantes.

– Mas é muita audácia da filha postiça do lobisomem aparecer por aqui, não? – uma garota ria abertamente, enquanto apontava para a marota. Os outros caíram na gargalhada.

A marota Avoada tentou se controlar, não daria motivos para que Snape a descartasse mesmo antes de começar a prova. Respirou fundo mais uma vez e virou-se para frente, encarando a lousa negra, enquanto o restante da turma se esvaía em risadas sarcásticas, fazendo comentários maldosos sobre ela. “Quem ri por último, ri melhor”, ela pensou. Tão logo tivesse oportunidade, ela daria um jeito de ir à forra. Naquele momento, entretanto, ela só queria se concentrar no exame que estava por vir.

– Silêncio, por favor. Somente penas e tintas sobre a mesa.

A voz feminina austera e autoritária ecoou nas masmorras. Os sonserinos viraram-se assombrados para se certificar de que não se tratava de uma pegadinha. Dani, porém, sorriu satisfeita. Encarou sorrindo a professora de Transfiguração, que tomava posse temporária da escrivaninha do morcegão, sentando-se diante da turma.

– Boa noite. O professor Snape precisou se ausentar e fiquei encarregada de ministrar o teste de monitoria para os senhores. A prova será dividida em duas etapas, a primeira será a avaliação teórica e em seguida, teremos uma breve prova prática. Já sabem o comportamento que espero dos senhores, portanto concentrem-se e boa sorte.

Dani Lupin sorria sem esconder nenhum dente. As coisas começavam a se movimentar a seu favor mesmo antes que ela pensasse em que azaração usar contra aquela cambada de despeitados. Silenciosamente, ela agradecia a Merlin, Morgana, Circe e a todos os grandes bruxos das grandes eras históricas, por interceder a seu favor. Esfregando as mãos uma na outra, ela recebeu seu pergaminho, se debruçou sobre ele e começou a responder avidamente as questões.

Elefante Dorminhoco

Acordei naquela manhã um pouco atordoada, provavelmente por causa de um certo sonho que teima em se repetir. Elefantes e sons, a cabeça gigante de uma estátua, atolada em uma lagoa. Eu sabia bem o que significava, mas não queria encarar as informações.

O dia correu bem, as aulas não foram muito emocionantes, nem os alunos intrigantes. Um dia banal qualquer.

Sentei-me na colina para observar o por do sol. Ultimamente tenho escolhido a solidão, a reflexão… A introspecção. Nada de falatórios ou lamúrias. Tenho estado tão cansada, e não dormir bem não tem ajudado muito.

O chocolate estava quente, me aquecendo nessas tardes frias de outono. Muito barulho a minha volta, pela ansiedade da chegada das delegações estrangeiras. Não posso dizer que estou muito interessada, mas entendo que pode ser uma oportunidade única em fazer novos contatos.

Prefiro esperar pelo Dia das Bruxas, adoro abóboras. São saborosas, tem cores vivas, e cheiro inebriante…

Marcus Santurys – Minas

A little respect

O sonserino entrou na Sala Comunal ruminando e pisando forte. O que deu nela afinal? É verdade que quando decidiu abordar Alexis de maneira mais direta, ele sabia que levar um fora era um risco (embora ele realmente não esperasse por isso dessa vez). Mas aquilo passara dos limites. Quem ela pensava que era para lhe tacar um pudim na cara?

A humilhação que passara no jantar, somada a inevitável sensação de frustração o estavam enlouquecendo. Ele entrou no chuveiro para lavar os resquícios de doce e aproveitar a deixa de solidão para colocar a cabeça em ordem. Do lado de fora do banheiro do dormitório, ouviu a voz conhecida de Gabe chamando por ele.

– Daryl? Você está bem, cara?

Purple aumentou o fluxo de água do chuveiro e afundou-se um pouco mais na banheira, sem responder. Agradecia a preocupação do amigo, mas naquele momento ele precisava ficar sozinho para pensar e se controlar. Aliás, mais do que a reação de Irritadinha, perder o controle era o que realmente o estava incomodando. Ele que sempre mantivera o mais absoluto controle sobre o que sentia e fazia, havia perdido as estribeiras. Isso definitivamente não era um bom sinal.

I try to discover a little something to make me sweeter
Oh baby refrain from breaking my heart
I’m so in love with you, I’ll be forever blue
That you give me no reason
Why you’re making me work so hard?
That you give me no, That you give me no
That you give me no, That you give me no
Soul, I hear you calling oh baby please
Give a little respect to me

No começo, estava claro para ele que a sua motivação para ficar na cola da garota era o comportamento arredio dela. Aquele jeito explosivo e a postura óbvia de quem não se interessava em garotos e romances, tão contrária à natureza das meninas de sua idade, o haviam de certa forma, desafiado. Claro que além disso, Alexis é uma garota bonita, legal e inteligente, o que completava o pacote, mas o estopim que disparou o interesse dele definitivamente foi o jeitão “estou nem aí” dela de lidar com essas coisas. Mas até este ponto da análise, ele não teria motivos para perder a cabeça, teria? Afinal, já levara outros foras antes, e até alguns tapas quando ele era mais afoito, e não se recorda de ter se descontrolado daquela forma.

And if I should falter would you open your arms out to me
We can live love not war and live at peace with our hearts
I’m so in love with you, I’ll be forever blue
What religion or reason could drive a man to forsake his lover
Don’t you tell me no, don’t you tell me no
Don’t you tell me no, don’t you tell me no
Soul, I hear you calling oh baby please
Give a little respect to me

Enquanto a água continuava caindo sobre os cabelos do moço, as idéias pareciam clarear. Só havia um motivo para que ele agisse de maneira tão intempestiva. E ao contrário do que se esperaria num momento daqueles, quando ele estava com tanta raiva, ele sorriu. A vaga idéia de gostar de alguém sempre o assustara e ele achou que isso jamais fosse acontecer. Mas agora que o fato dançava diante de si, ele estava o estava achando muito interessante. Era isso, tão óbvio e ululante que até o Storm havia percebido. O fato era bem o contrário do que ele dissera tão à queima roupa para a Irritadinha. Não era ela quem estava caidinha por ele. Era ele quem estava derrubando um pequeno penhasco pela grifinória. E, longe de achar que isso seria um grande problema, o rapaz sentiu um novo ânimo. Agora ele tinha uma motivação real e nobre para persistir na sua empreitada.

 

Título e trechos da música A little respect, do Erasure. Um clássico dos anos 80. :D