Se eu não lembro, não aconteceu

A porta da cabine das garotas se escancarou. Aparentemente, Chris acabara de retornar de seu passeio pelos vagões do Expresso de Hogwarts. Porém, o rapaz não voltara sozinho, trazia à tiracolo Daryl Purple e Josh Belmont. A presença dos recém-chegados fez com que Arwen corasse absurdamente as bochechas e sentisse suas orelhas esquentando. Alexis também parecia ligeiramente desconcertada. Os rapazes cumprimentaram as meninas cordialmente. Daryl foi se acomodando ao lado de Dani e de frente para Alexis, que por sua vez, escorregou discretamente para a ponta do banco dando lugar ao amigo corvinal. Chris enfim, se acomodou ao lado de Purple. Josh, tal como Arwen e Alexis, também parecia encabulado.

– E então, como estão as garotas mais bonitas de Hogwarts? – Purple, à sua maneira, tentou quebrar o silêncio pesado e constrangedor que se instalara subitamente na cabine, e as meninas apenas sorriram em resposta e murmuraram algumas palavras ininteligíveis. Daryl, entretanto, apesar de perceber o mutismo inédito das amigas, não se deu por vencido. Ao notar que Arwen colocou uma mecha de cabelo atrás de uma das orelhas, ele a encarou de forma intrigada e disparou:

– Arwen, me perdoe a indiscrição… mas suas orelhas estão diferentes…

A garota retribuiu, assustada, o olhar do amigo, tratando de colocar de volta o cabelo na frente da orelha.

– Pois é, Daryl, percebi também. Eu devia ter perguntado à minha mãe se isso é normal, mas como não achei que fosse algo relevante, deixei passar. Mas agora que você tocou no assunto, acho que eu realmente deveria dar uma olhada nisso…

– Não se preocupe, pequena Zoreia. Você finalmente está fazendo jus ao apelido, só isso. – Alexis sorriu e colocou o cabelo da amiga atrás de sua orelha novamente.

Joseph chegou a abrir a boca para dizer algo que pudesse animar a garota, afinal ele não via nada de anormal nela, nem em suas orelhas. Porém dadas as circunstâncias, ele achou mais prudente calar-se. Estava constrangido demais para falar com ela o que quer que fosse, depois de descobrir, no trem e pela boca do povo, o que ele andara aprontando no fim da festa do amigo sonserino. Afinal, ele felizmente não se recordava de nada.

Chris reparou como Arwen ficou desconfortável com o assunto referente as suas orelhas, e resolveu arriscar outro tema para o papo, com a clara intenção de aliviar a barra da amiga.

– Purple, nossa, a sua festa foi muito boa! Todos no trem parecem estar comentando sobre ela… – Nesse momento Josh fechou a cara, recebendo de Alexis uma cotovelada reprovadora nas costelas. Ela sabia que Chris não falara por mal, mas o amigo corvinal não estava disposto a tecer comentários sobre o famigerado evento. Alexis duvidava até mesmo que ele se lembrasse de como destravar o rosto.

O sorriso de Dani Lupin se escancarou com o comentário de Storm. Era a oportunidade perfeita para descobrir mais sobre o que as marotinhas andaram aprontando para estarem tão na defensiva, apesar de ela própria ter ficado retraída com a abordagem incisiva das amigas durante o jogo besta que Alexis propusera.

– Pois é, todos estão comentando sobre a festa… – Daryl, orgulhoso, deu assunto ao Chris – As coisas podem não ter saído exatamente como eu planejei, mas de qualquer forma, fico feliz que ainda assim, tenha sido um sucesso.

– Eu estou curiosa, ninguém me conta nada… – Dani comentou, saindo pela tangente e exibindo um sorriso de comercial trouxa de pasta de dente – Afinal, infelizmente não pude ficar por muito tempo, então perdi o melhor da festa. Se alguém puder me inteirar dos fatos, fico muito agradecida.

Nesse momento, Arwen fixou a chuva torrencial do outro lado da janela, tentando parecer como se fizesse parte da paisagem. Josh olhou para os próprios pés, encarando-os muito concentradamente, e Alexis, ruborizada, parecia perdida em um duelo mental com sua coruja, agora no seu colo. Como nenhum dos três demonstrou interesse em contar as peripécias da noite da festa, o anfitrião, ansioso por cutucar a onça com vara curta, resumiu em poucas palavras os acontecimentos mais marcantes daquela ocasião – pelo menos, os que não lhe diziam respeito diretamente.

– Bom, digamos que tivemos shows particulares de alguns amigos: de demonstração de vôo ornamental até apresentação de dança de salão… com direito a palco e tudo o mais… – Daryl olhava de esguelha para Josh e, em seguida, para Arwen – Mas acho que não teremos maiores detalhes dos acontecimentos, infelizmente.

A conversa morreu, para desespero de Dani, e Josh, por sua vez, se sentiu profundamente agradecido aos amigos por não forçarem a barra no assunto. Depois de descobrir o que andou aprontando, ele sabia que deveria se desculpar com a amiga pelos tropeços, carões e quedas na festa, mas estava profundamente desconcertado e sem saber como abordá-la.

Logo se ouviu o barulho das rodas do carrinho de lanches sacolejando ao longe no vagão, e Daryl sugeriu que fossem até lá buscar algumas guloseimas para comer. O grupo se levantou em bando, mas Arwen permaneceu imóvel, contemplando os grossos pingos na vidraça da janela. Belmont, percebendo que a garota não sairia atrás dos doces e bolos, como de costume, optou por permanecer na cabine também. Era uma oportunidade de realizar o seu intento, se conseguisse falar alguma coisa.

– Não está com fome? – o corvinal tentava puxar assunto.

– Na verdade, não… – ela respondeu, ainda encarando a janela e corando absurdamente.

– Potter, eu…

– Potter? – ela finalmente desviou o olhar da janela e o fixou no rapaz ao seu lado, estranhando a maneira formal como ele a estava tratando. Afinal, já haviam deixado essas formalidades de lado há meses.

– Desculpa…  Arwen, eu… – o moço não sabia onde enterrar a cara, mas tinha que se retratar de alguma maneira – Sobre a festa, alguns amigos vieram me falar… Bem… é que… Eu não me recordo de nada, então não sei… Mas se por acaso eu fiz algo… estranho… eu…

– Bom, você fez várias coisas estranhas, é verdade. – a grifinória desabafou finalmente – Mas não tem problema, está tudo ok. Deixa isso pra lá.

– Me desculpe pelo papelão.

– Não precisa se desculpar. Confesso que foi constrangedor, mas também foi muito divertido. Não há necessidade de desculpas. Sério mesmo.

Ela sorriu sinceramente para o rapaz, que retribuiu o gesto. A porta da cabine se escancarou novamente e os amigos entraram carregados de bolos de caldeirão, sanduíches, suco de abóbora e uma montanha de sapos de chocolate.  Eles se serviram sem cerimônia e um clima finalmente mais ameno pairava no ar.

– Não entendo por que não servem cerveja amanteigada no Expresso! – Dani Lupin resmungava enquanto mastigava.

– Pra mim, está tudo excelente! – Chris retrucou, também se servindo generosamente – Esse carrinho de doces é fantástico, pena que só embarcamos duas vezes por ano…

Observando o ar festivo que se instalara entre eles, Arwen suspirou e sorriu novamente, abocanhando um bolinho de caldeirão e sorvendo um grande gole de suco de abóbora. O período escolar estava só começando. E ao ver aquelas pessoas tão queridas ao seu redor, ela pensava que aquele ano prometia ser o mais divertido de todos até o momento.

 

Shhh!

As Marotas finalmente estavam a sós na cabine, para satisfação de Dani Lupin, que esperara pelo momento certo para interrogar as amigas. Não que ela não tivesse tentado no dia seguinte à festa, e também depois disso, mas as duas amigas da Avoada simplesmente faziam cara de paisagem ou davam respostas evasivas e sumiam de vista. Agora, paradas e sentadinhas na cabine do trem, não tinham como escapar.

– E então?

– E… então…? – Arwen seguia a pergunta sem prestar muita atenção, estirada no canto do banco para ficar perto da janela.

– Será que alguém vai me contar que raios aconteceu com vocês na festa do senhor Daryl Purple? Aliás, o que aconteceu com todo mundo lá?

Arwen e Alexis se olharam de imediato fazendo caretas exasperadas, de comum acordo de que nenhuma delas estava preparada para expor suas desventuras em série.

– Andem logo, alguma hora vocês vão ter que falar alguma coisa!

– Muito bem, eu falo. – Alexis olhava para as amigas de forma altiva – Eu proponho um jogo! Se chama Silêncio Constrangedor e quem falar, perde.

– É! Isso! Boa! E quem não falar, ganha. – Arwen logo captou a idéia da amiga.

– Mas meninas! – Dani ainda suspeitava da atitude das duas marotas sentadas a sua frente.

– Espera. Ganha o que? – Perguntou Alexis

– O pouco de DIGNIDADE que ainda nos resta, cabecinha de vento? – disse Arwen entredentes e em tom mais baixo. Alexis respondeu entredentes também, imitando a amiga:

– Acho que comi isso no meio das panquecas há muito, muito tempo, Rainha do Ponche.

E com um pequeno chute na canela de Alexis, Arwen anunciou o início do jogo. Durante algum tempo elas se olhavam entre sorrisinhos amarelos, suspeitas e principalmente com desconforto, proposto já pelo nome do jogo.

– Ponche? – Dani Lupin havia quebrado o silêncio olhando para Arwen.

– Não olhe pra mim, quem dançou até mesmo com um cacho de bananas foi ela! – disse a marota, no susto, bastante encabulada.

Alexis, que até então seguia hipnotizada, contando as árvores que passavam correndo na paisagem lá fora, foi trazida para a realidade da cabine ao som da palavra “bananas”.

– Shhhhh, vocês duas!

E mais alguns minutos de silêncio.

– Mas que você dançou com as bananas, dançou. E vestidas com o casaco do Chris! E ainda me carregou junto! – Arwen murmurava.

– Olha, eu não posso dizer que fico surpresa, Irritadinha. – Dani sorria para ela – Mas com tantas pessoas lá para dançar, por que justo as bananas?

– Eu já contei o quanto a Arwen gosta de cair, escorregar e subir em mesas, sempre acompanhada?

– Não, mas posso contar antes o quanto a Irritadinha aqui gosta de se esconder embaixo dessas mesas. Acompanhada. E pelo anfitrião.

– O QUE? O QUE? O QUE? – Dani Lupin agora pulava na sua poltrona da cabine, olhando de uma marota para a outra, sem entender nada, mas finalmente conseguindo conversar sobre a festa.

– Shhhhhhhhhhhhhhhh-hhhhhh-hhhhhh-h! – Alexis insistiu no jogo.

E mais silêncio.

– Eu não aguento mais esse jogo besta, já chega. Ou vocês duas me contam o que fizeram no baile o tempo todo ou…

– Opa, como assim você não sabe o que fizemos o baile todo? Ah! É mesmo, dona Loba, a senhorita simplesmente sumiu no começo e não a vimos mais! – Arwen interrompeu o interrogatório e virou a mesa, seguida por Alexis.

– Elementar, minha cara Tonta. Esta criatura Lupina que salta no banco diante dos nossos olhos nos abandonou e, segundo boatos de algumas meninas intrometidas, porém bem informadas, nós duas fomos trocadas por um sofá do banheiro! Que despropósito!

– Um ultraje, Irritadinha! – Arwen tentava manter um semblante de revolta, mas estava gostando do novo rumo que a brincadeira tomava. – Por falar nisso, Avoada, quando e como VOCÊ foi embora naquela noite?

Dani Lupin teve a intenção de responder, mas imediatamente ruborizada ao se lembrar do evento, apenas se limitou a produzir um único som:

– SHHH!

É tarde

Joseph protelou o quanto conseguiu o embarque. O acesso à locomotiva no ano anterior, quando foi transferido para Hogwarts, fora bastante doloroso: Inúmeros pais despedindo-se dos filhos e Josh esperou todos entrarem no trem para que não percebessem que não havia ninguém com ele. Esse ano não seria diferente. Anastácia e Horário acompanharam o garoto até a plataforma, e por mais que insistissem, o garoto desencorajava o acompanhamento até o trem.

– Lorde Belmont – disse o mordomo – O Sr. trouxe exatamente tudo que precisava?

– Já falei para não me chamar assim – retrucou Joseph .

– Certamente, Lorde Belmont. Perdão.

O rapaz arrastava sua bagagem, que Anastácia insistia em tentar tirar de suas mãos. Próximo à plataforma, foi abordado por uma trouxa que se afeiçoara à sua gata. Era visível a expressão de recriminação de Horário, que preocupava-se com a pontualidade do mestre.

– O trem partirá em breve, Lo… Sr. Belmont. Irá atrasar-se ao seu compromisso.

Era exatamente esse o plano, atrasar. Com muita polidez, o grupo desengajou-se da trouxa e caminhou à plataforma 9 3/4. Anastácia abraçou Joseph como um filho.

– Boa viagem, Sr. Belmont.

O rapaz perdeu-se no abraço e emocionou-se com a lembrança dos pais.

– Até mais… cuidem bem do Stormrider… – disse ao desaparecer na sólida parede.

 

Bem vindo ao Expresso de Hogwarts

Poucos minutos antes das 10h, a trupe se reunia em frente a residência dos Potter.  Uma penca de meninos ansiosos aguardava o carro que os levaria até a estação King’s Cross, carregados de malões, gaiolas com corujas e o gato, e no caso de Dani Lupin, também bolsinha, frasqueira, mochila e outras coisinhas. Sabe como é, uma marota prevenida vale por muitas. O carro tipicamente trouxa parou na frente da casa onde o grupo  numeroso e pouco discreto aguardava sob enormes guarda-chuvas. Bryan estava na direção e havia providenciado algumas modificações na estrutura interna do veículo para acomodar o pessoal sem maiores transtornos. Logo, se ajeitavam confortavelmente no banco de trás Arwen, Alexis, Dani, Chris, Liv e Cal. Andy foi no banco da frente.

– Tudo pronto, pessoal? Podemos ir?

O povo no banco traseiro assentiu e finalmente, partiram para a estação. Chris Storm não tentava esconder a excitação.  A melancolia do começo da manhã cedeu espaço para aquela sensação de euforia que tomava conta de si, e ele mal se continha de ansiedade.

Não tardou muito, o carro estacionava numa rua movimentada, bem defronte a estação, debaixo de uma chuva de lavar os miolos. O grupo desceu do veículo, descarregou a bagagem e rumou, aos trancos e barrancos, em direção à grande e barulhenta construção do outro lado da rua. Um calafrio percorreu a espinha de Chris. De frio, pela chuva que tomara, e também por estar pela primeira vez na estação londrina. O garoto não pôde deixar de notar que a bagagem peculiar que eles carregavam chamava atenção da população não mágica local. No entanto, as pessoas não se demoravam observando o grande e estranho grupo e logo se voltavam para suas vidas e afazeres.  O rapaz estava imerso em seus próprios pensamentos quando ouviu a voz da mãe lhe falar.

– Vamos atravessar agora a barreira de acesso à plataforma 9 ¾ , está preparado? – ela disse impressionantemente calma, com a mão no ombro do filho, e ele assentiu com a cabeça.

Cal continuou, falando agora para os adultos:

– Acho melhor os meninos irem na frente, essas corujas estão chamando muita atenção…

Todos concordaram e logo Chris se viu arrastado pelas amigas em direção a uma barreira bem sólida logo mais adiante, entre as plataformas de embarque 9 e 10. Ele já sabia teoricamente como proceder, mas estar diante daquela parede de concreto o fez pensar por um instante se não colidiriam com ela. Como as meninas tagarelassem sem dar a menor importância à solidez da parede, ele relaxou e as seguiu, caminhando firmemente enquanto empurrava seu próprio carrinho. E uma a uma, ele viu as garotas desaparecendo através da coluna. Fechou os olhos quando chegou a sua vez e quando os abriu, a bela e imponente locomotiva vermelha se descortinava diante de si, soltando gordas e repolhudas nuvens de fumaça cinza chumbo, que nublavam a vista peculiar daquela plataforma – grupos de crianças e adolescentes e seus familiares, todos carregando malões como os dele, gaiolas com animais, a ansiedade do embarque pairando no ar quase tão palpável quanto qualquer coisa sólida ali.

O rapaz observava o movimento em silêncio, tentando reter todos os detalhes, quando sentiu suas roupas repentinamente se aquecendo. Só então percebeu que suas vestes estavam encharcadas por causa da chuva que tomaram até entrar na estação, e que sua mãe acabara de secá-las com um feitiço qualquer. As meninas já estavam devidamente enxutas e conversavam alegremente. Dani Lupin vez ou outra espichava o pescoço para cima observando o movimento ao redor, como se estivesse procurando alguma coisa ou alguém. A garota suspirou e sugeriu aos amigos:

– Melhor a gente entrar para guardar as coisas e procurar uma cabine pra nós, senão não vamos conseguir um bom lugar.

Os quatro assentiram e entraram na locomotiva. Por sorte, conseguiram uma cabine vazia no último vagão. Eles acomodaram os malões nos bagageiros, depositaram as gaiolas com as corujas e com o gato de Arwen nos assentos e correram novamente para fora, para se despedirem dos adultos. Ao saltarem do trem, Chris notou a presença de um homem de cabelos castanho claro e aparência bastante cansada conversando com seus pais e seus padrinhos, e tomou um susto com o grito de felicidade de Dani Lupin, quando ela correu na direção do sujeito.

– Papiiiiii! Você veio! – a garota se jogou nos braços do desconhecido, dando-lhe um abraço efusivo e visivelmente saudoso.

– Claro que vim, marotinha, ou você acha que eu deixaria você embarcar sem me despedir? – o moço retribuía o abraço da corvinal enquanto esfregava sua cabeça carinhosamente.

– Chris, esse é o professor Remo Lupin, pai da Dani. – Arwen o apresentou ao amigo sob o olhar ligeiramente inquisidor do homem ao vê-la o chamando de “professor” – Você infelizmente perdeu as aulas com o melhor mestre de DCAT que nós já tivemos. E não é puxação de saco!

– Éééééé! – Dani e Alexis concordaram com empolgação, e Avoada seguiu com as explicações – Uma pena ele não querer ficar mais e por isso, faz essa cara de quem comeu feijãozinho sabor cera de ouvido toda vez que as meninas o chamam de professor…

– Muito prazer. – o homem estendeu a mão a Chris para cumprimentá-lo – E não escute essas meninas, elas são muito exageradas.

Logo ouviram o apito da locomotiva soando pela estação. Chris encarou os olhos apreensivos e lacrimosos de Callista, que lhe envolveu num abraço apertado.

– Prometa que irá se cuidar direitinho e mandar notícias sempre! Vou morrer de saudades!

– Prometo sim. Fica tranquila, mãe. Vou ficar ok. E você fique bem também, só estou indo para a escola! – ele disse, retribuindo carinhosamente o abraço da mãe.

Depois das despedidas, os quarto pularam para dentro da locomotiva, correndo para a janela de seu vagão, e se puseram a acenar para os que ficaram, enquanto o trem ganhava velocidade e sumia de vista.

A partida, a tempestade e a saudade

Aparentemente o dia nascera, mas o tempo escuro lá fora não ajudava muito. Ainda embaixo das cobertas, Chris Storm fazia um esforço sobrenatural para acordar e levantar-se. A chuva forte castigava as janelas e tinha efeito de sedativo sobre as pálpebras do garoto, ainda muito sonolento. Remexendo-se com muito esforço, alcançou o relógio na cabeceira de sua cama. Já passava das 7 da manhã. Num outro dia qualquer não haveria necessidade de acordar tão cedo, ainda mais num dia chuvoso como aquele. Mas as férias escolares estavam chegando ao fim e um novo ano letivo começaria dentro de algumas horas. E desta vez, nada seria como antes, ele estava convicto disso. Não retornaria para a Academia Grega de Magia e Mitologia, sua antiga escola, mas embarcaria logo mais, às 11 horas, no Expresso de Hogwarts. Chris estava muito ansioso, finalmente chegara o dia de conhecer a escola que seus pais estudaram e fazer parte de tudo aquilo!

Chegar até ali foi uma tarefa árdua, ele tinha consciência disso. Enfrentar seus pais para obter o consentimento para a transferência não foi fácil, especialmente ao encarar o desespero de sua mãe. Ele sabia desde o começo que estava mexendo nas feridas profundas de Callista, e que sua atitude a princípio pareceria bastante egoísta aos olhos de seus pais. Afinal, que mal havia em continuar estudando na escola grega? Moravam na Grécia, ele gostava da escola, tinha amigos, e quadribol é legal, mas não é tudo na vida. No entanto, ele sentia há algum tempo que precisava fazer alguma coisa também em relação à mãe. Talvez ela não tivesse consciência de que fora uma das alavancas fundamentais que desencadearam aquele processo, mas no momento oportuno ela reconheceria isso. Claro que o incidente desagradável envolvendo os comensais da morte na Copa Mundial quase a fez voltar atrás, mas Cal era uma mulher forte, corajosa e inteligente, e manteve sua palavra. Ela havia de se sair bem diante daquela nova situação. E, quem sabe, finalmente ela poderia exorcizar de vez todos os fantasmas do passado? Chris desejava isso mais que tudo na vida.

Afastando esses pensamentos para um cantinho da sua mente, o rapaz se concentrou na ansiedade e na alegria que sentia com a proximidade da viagem. Foi pensando nas novidades que ele conheceria dali por diante que tomou coragem para se levantar da cama em definitivo. Calçou os chinelos e se pôs a ajeitar os últimos acertos de sua bagagem. Storm e as meninas ficaram acordados até tarde na noite anterior arrumando as malas, mas alguns detalhes não permitiam ser empacotados de véspera. Sua coruja, por exemplo.

Minutos mais tarde, o garoto desceu as escadas para encontrar o restante do pessoal. A primeira cena que viu, ainda antes de acabar de descer os degraus, o fez sorrir. Arwen e Alexis tentavam a todo custo pegar Silmarillion pelo cangote para colocá-lo na gaiola, mas o gato gordo e cinzento as fazia de bobas com uma facilidade incrível. Enquanto isso, Dani Lupin folheava o novo livro de poções esparramada no sofá, despreocupadamente, já com toda a sua bagagem a postos. A garota deu um pulo enorme de susto quando o gato de Arwen surgiu do além, ficando as unhas na almofada sobre a sua barriga.

– Mas não se pode nem ler sossegada! – ela resmungou, pegando o gato e o colocando de lado – Ah, olá, Chris. Bom dia! – a Lobinha cumprimentou o garoto, fazendo com que as outras duas meninas prestassem atenção nele.

– Bom dia, Dani. Bom dia, meninas! – ele cumprimentou sorrindo amplamente – Animadas para a viagem logo mais?

Arwen o encarou e sorriu. Ela havia se esquecido completamente que, apesar de ela e as amigas marotas estarem super habituadas ao ritual de embarque no Expresso, aquela era a primeira vez de Chris.

– Nós sempre estamos animadas, afinal não somos marotas à toa, e você? – Alexis perguntou ajeitando a roupa, agora cheia de pelos de gato na calça escura que vestia, enquanto Arwen finalmente conseguia colocar o bichano na gaiola – Afinal, hoje o senhor vai ser apresentado ao carrinho de doces do Expresso!

– Na verdade, estou um pouco nervoso… – ele falou mais para si do que para as amigas, enquanto coçava a cabeça. Planejar e fazer acontecer tudo aquilo fora a parte mais fácil. Agora que a hora da partida se aproximava é que ele podia sentir qual seria, de fato, a parte difícil da história – o momento da despedida, e como ficariam as coisas uma vez que ele estivesse longe de casa. Sabia que Callista sofreria um bocado, e ele se sentia um pouco culpado por isso.

Arwen compreendeu o que o amigo sentia. Não haviam conversado claramente sobre aquilo, mas de alguma forma ela sabia o que estava acontecendo: a preocupação de Chris com sua mãe e o transtorno que fora a sua transferência para eles. Ela sorriu para o amigo como que a encorajá-lo e o convidou a seguir, para irem tomar café. Proposta, aliás, aceita pelas marotinhas com muita animação.

– É isso aí, hora do café! – Alexis disse, passando a mão na barriga – Hora das minhas queridas e amadas panquecas…

– Éééééé! – Dani Lupin correu na frente para a cozinha – Hora da última e decisiva Guerra pelas terras Panquecóides! Iááááá!

– Ei, Avoada, espere por mim! – Tonta se pôs a correr cozinha adentro, arrastando Storm com ela, ao mesmo tempo em que Irritadinha também partia desembestada para tentar salvar suas idolatradas panquecas. Os três entalaram na porta enquanto dentro da cozinha, Dani Lupin enchia a boca de panquecas com calda de chocolate, e os três adultos (Liv, Cal e Andy – Bryan havia saído para providenciar os últimos ajustes no carro para a viagem dos meninos), mais uma vez, olhavam atônitos para a algazarra diante deles.

Definitivamente, a casa vai ficar muito vazia quando eles se forem… – Liv pensava, sorrindo, enquanto Callista, muda, segurava a mão do marido com força, muito apreensiva e angustiada por se separar do filho único. Mas pelo menos naquele instante, com o coração mais leve por vê-lo tão feliz e animado. Se fosse para mantê-lo daquele jeito, teria valido a pena todo o sofrimento que aquela mudança lhe causara. E enquanto seus olhos cor de violeta encaravam os mais novos, ela sem perceber, sorriu pela primeira vez naquele dia.