Contos inacabados – Vulnerable

She’s so vulnerable, like china in my hands
She’s so vulnerable, and I don’t understand
I could never hurt the one I love, She’s all I’ve got
But she’s so vulnerable, oh so vulnerable

 

A chuva caía torrencialmente do outro lado da mureta. Como de hábito nos últimos meses, o senhor do mau tempo dispunha as enormes e pesadas nuvens cinza-chumbo de forma a encobrir todo o azul do céu inglês. Os cabelos negros de Arwen pendiam de sua cabeça inclinada e recostada numa das pilastras dos corredores externos do castelo, enquanto o pensamento da grifinória parecia pairar além dos limites da cortina de chuva. Um turbilhão de idéias, novas informações e sentimentos abstratos pareciam estar decididos a enlouquecê-la de vez naquela tarde. O aparecimento repentino dos pais de Chris Storm revelando-se como amigos de sua mãe e seus padrinhos, a descoberta recente da verdadeira causa da morte do pai e o que parecia ser um começo mal definido de relacionamento com o corvinal Joseph Belmont, aparentavam emaranhar-se numa teia densa, impedindo o raciocínio claro da garota.

 

Everywhere I look I see her smile
Her absent-minded eyes
And she has kept me wondering for so long
How this thing could go wrong

 

Perdida nesse mar conturbado e melancólico, não reparou a aproximação do setimanista lufano que, de uma maneira nada sutil, também se encontrava inserido no contexto de conjecturas de Arwen. Ele parou ao lado da grifinória, apoiando-se também na mureta e, tal como a garota, fixou o olhar na chuva forte que caía diante deles.

– Um sapo de chocolate por seus pensamentos. – ele arriscou enquanto a observava pelos cantos dos olhos.

– Dois por um pouco de sossego na vida. – ela respondeu com um sorriso desanimado.

 

It seems to me that we are both the same
Playing the same game
But as darkness falls this true love falls apart
Into a riddle of her heart

 

Chris, notando o semblante xoxo da menina, aproximou-se mais dela, agora encarando-a de frente.

– Posso ajudar de alguma forma? – ele ofereceu – Se quiser conversar…

Arwen suspirou enquanto mantinha o olhar fixo no tempo úmido.

– Acho que talvez eu esteja de novo fazendo tempestade em copo de veritasserum. De qualquer modo, tenho sido uma chata por esses dias e não quero incomodar mais ninguém com minhas bobagens.

– Você não me aborrece, mas se quer calar, posso doar o ombro amigo de sempre – ele sorriu quase marotamente – Essa pilastra me parece tão fria e desconfortável… – Storm concluiu, esperando uma resposta da moça.

 

She’s so vulnerable, like china in my hands
She’s so vulnerable, and I don’t understand
I could never hurt the one I love , she’s all I’ve got
But she’s so vulnerable, oh so vulnerable

 

A grifinória de orelhas pontudas nada respondeu, apenas observou o rapaz de jeito hesitante e, ao voltar-se outra vez para a cortina de chuva, sentiu-se sendo delicadamente aconchegada entre o braço direito e o corpo do rapaz, que empurrou suavemente a cabeça da garota, fazendo com que ela repousasse em seu ombro.

Em outra circunstância, talvez a reação esperada da quintanista perante aquele gesto fosse afastar-se, totalmente sem graça. Mas sem compreender porque, não teve forças, nem vontade de levantar-se dali. Na realidade, esse pensamento sequer lhe atravessou a mente, embora se sentisse um pouco encabulada, mas o conforto de estar ali compensava qualquer outra coisa estranha que viesse a sentir.

 

Days like these no one should be alone

No heart should hide away
Her touch is gently conquering my mind
There’s nothing words can say

 

Chris, sem premeditar, deixou seus dedos escorregarem por entre os fios negros e pesados do cabelo da menina. Era a primeira vez que ele a tinha tão próxima, também a primeira vez que ela lhe parecia tão vulnerável. O lufano não pensou em nada, somente percebeu sua mão puxando o rosto de Arwen para si e sentiu seus lábios finalmente encontrando os dela. Seus braços acabaram por estreitar a pequena cintura da garota e, por um breve momento, ele sentiu ser correspondido. Por um instante de fato muito curto, na concepção do rapaz. Tão logo ele a teve lânguida nos seus braços, no instante seguinte, ela tentava se desvencilhar dele, tão arredia quanto delicada.

– Chris, você ficou louco? Por que fez isso? – ela parecia perturbada e um pouco inquieta.

– Eu fiz somente o que senti e você respondeu o que sentia também.

O lufano não pretendia confundir mais a cabeça da grifinória, mas naquele momento estava deixando seu coração guiar seus atos. Desde que a conhecera sentira algo diferente e esperou pacientemente que ela se decidisse entre ele o o corvinal que claramente também queria seu coração.

Quando a viu tão só não se importou se ela tinha ou não namorado, somente queria mostrar que tinha alguém que se importava e estava lá por ela.

– Não pode, você não tem juízo. Isso é praticamente um incesto! – ela disse enquanto tentava de todas as formas escapar pelo corredor, mas o reflexo do rapaz fora mais ágil e ela se viu seus braços seguros firmemente pelas mãos de Storm.

– Não é e nunca será um incesto. Até poucos dias atrás a nossa única ligação era esse conforto que sentíamos um perto do outro. – Chris aproximou seu rosto ao de Arwen, enconstando suas testas. – Eu gosto de você. Me diga que não sente o mesmo…

 

She’s colored with all the secrets of my soul
I’ve whispered all my dreams
But just as nighttime falls this vision falls apart
Into a riddle of her heart

 

A grifinória mordiscou discretamente o lábio inferior, enquanto sentia os olhos cinzentos do rapaz explorando os dela, e por um instante esqueceu o resto do mundo.

– Eu não…

Arwen queria responder o que acreditava correto, mas viu a voz morrer antes de terminar a frase. A lembrança de minutos antes estava ainda muito nítida e teve de súbito uma vontade incontrolável de sentir os lábios de Chris novamente. Ele continuava ali, parado, com a cabeça encostada na dela, olhando-a fixa e ansiosamente, esperando por uma resposta. A garota abriu a boca para falar alguma coisa, mas não conseguiu. Aproximou-se mais do rapaz e num impulso, buscou os lábios dele outra vez.

Ao sentir os lábios da garota que tanto queria buscando os seus, Chris a abraçou como se fosse um objeto precioso. Sentiu o coração dela bater tão intensamente quanto o seu e para o rapaz era a respossta que precisava para saber que osdois eram certos um para o outro.

Num sobressalto, todas as condições que julgava serem as mais acertadas desfilavam de novo diante dos olhos do inconsciente da quintanista, que se afastou de Chris antes que ele pudesse fazer alguma coisa, e descambou correndo como louca pelo corredor afora, sem olhar para trás.

Sem saber direito o motivo da grifinória correr daquele modo, Chris encostou o corpo na pilastra fria, tentando se acalmar. Deitou a cabeça para trás na parede, pensativo. Ele percebeu que queria ser algo estável na vida de Arwen e que ia conseguir mostrar isso para ela.

Storm saiu decidido a lutar pela sua grifinória. Tinha como aliado a certeza de que ela também gostava dele, junto com o gosto daqueles lábios que ele capturou e que depois foram atras dos seus.

 

 Por Arwen e Chris

 

Título e trechos de Vulnerable, de Roxette.

Nota explicativa:

Contos inacabados é uma série de posts que na ocasião em que foram escritos, em 2007, estavam bem adiantados em relação ao andar da história. Mas antes que pudessem ir ao ar, o site acabou entrando no longo hiatus de seis anos, e quando voltamos, optamos pelo reboot, e o plot inicial que desenvolvíamos foi reformulado. Muitas dessas coisas já não existem, mas outras serão reaproveitadas, com toda certeza. <3

 

Contos inacabados – A thing about you

Ela havia prometido a si mesma que não bancaria mais a marota Holmes. Mesmo assim, continuava intrigada com a identidade dos amigos da mãe, naquela foto que ela guardou com tanto carinho. Lembrou-se do recorte de jornal que o professor Lupin forneceu, contendo a notícia da tragédia que dizimou a família da amiga de sua mãe. Automaticamente, ela se levantou, abriu seu malão e pegou o recorte entre os seus pertences.

O casal de amigos tinha um filho, provavelmente da idade dela e quem sabe, estudando em Hogwarts? A verdade era que mesmo sendo adotada oficialmente pelos Dumbledore, pais de Alexis, Arwen se sentia muito sozinha nessa questão familiar. Acreditava intimamente que encontrar indícios dos melhores amigos de sua mãe seria resgatar praticamente uma parte da sua própria família. Mas não sabia por onde começar. Até pensou na possibilidade do amigo Daryl Purple ser essa pessoa, mas ainda não tivera coragem nem oportunidade para abordar o assunto com ele. Será que ele seria realmente filho do casal Callista Graham e Andrey…

– Storm? – ela pensou alto, arregalando os olhos – Callista Graham e Andrew STORM? Como eu nunca pensei nisso? Pelas barbas de Dumbledore, como eu sou burra, como eu nunca percebi isso???

E correu de volta para o malão, pegando novamente a foto dos pais e do casal de amigos deles. Ela encarou a fotografia diante dela e o queixo dela caiu. O rapaz da foto, abraçado com a moça de olhos lilases, sorria e acenava alegremente para ela. Era bonito, usava óculos e era…

– Merlim amado, o Chris é a cara dele!

Arwen enfiou o recorte e a foto no bolso das vestes e saiu correndo desvairada do dormitório e depois, da torre da Grifinória. Já era quase hora do jantar, certamente encontraria Storm no salão principal.

************

No subsolo do castelo, um setimanista da Lufa Lufa estava particularmente intrigado com a carta que recebera de casa naquela manhã. De repente, depois da carta que ele enviara por último, dando os detalhes que os seus pais pediram sobre a nova amiga de Chris, informando sobrenome, casa, e afins (fato que ele achou muito estranho, afinal ele só havia comentado que conheceu uma pessoa legal e que era uma boa amiga, e não que ele estaria se casando ou algo do tipo), eles lhe responderam somente informando que chegariam naquela noite, no castelo, para uma visita. Ele não podia imaginar o que estava acontecendo, afinal sabia das limitações de sua mãe quanto a fazer uma viagem daquelas. Mas achou melhor esperar o que quer que fosse de barriga cheia. Já era hora do jantar e ele ficaria lá pelo salão, matando o tempo.

************

O rapaz da Lufa Lufa estava jantando calmamente e absorto em seus próprios pensamentos, enquanto um pequeno furacão élfico em vermelho e dourado se dirigia impetuosamente em sua direção, sem que ele percebesse. Arwen parou ofegante e parecendo muito inquieta atrás dele, e a aproximação dela fez com ele ele se virasse para vê-la antes que ela se anunciasse. Ao perceber que sua intuição sobre quem acabara de chegar era correta, ele teve vontade de sorrir, mas ao visualizar imediatamente o rosto ansioso da menina, apenas fitou-lhe sério e curioso.

– Chris, eu preciso falar com você.

Os colegas da Lufa Lufa ao lado do setimanista viraram-se para observar os dois colegas. Ela continuou.

– Tem que ser agora, não dá pra esperar. Você vem comigo?

O rapaz se levantou, enquanto se sentiu puxado pela mão para fora do salão principal, sendo guiado para os terrenos externos do castelo.

Uma vez instalados nos jardins, ela o encarou e disparou.

– Chris, como se chamam seus pais?

O rapaz a olhou surpreso. Aquela era a última pergunta que ele esperava ouvir naquele momento. Vendo a hesitação do rapaz, ela continou.

– Por acaso, se chamam Callista Graham e Andrey Storm?

Ele arqueou a sobrancelha, intrigado.

– Sim, mas como você sabe disso?

Ela tirou a preciosa foto das vestes e a entregou para Chris. Ele pegou a foto e olhou curioso, sorrindo em seguida.

– São seus pais? – ele perguntou, com o semblante mais leve – então você é a filha da melhor amiga dos meus pais, Liv Spellmann?

Arwen concordou, balançando a cabeça.

E antes que pudessem trocar quaisquer informações sobre a recente descoberta de ambos, a monitora chefe da Lufa Lufa se aproximou do local onde os dois estavam, pigarreando.

– Hum hum… não quero atrapalhar nada, mas… Storm, é que pediram para avisar que estão o aguardando no escritório da Profa. Sprout.

– Obrigado, já estou indo. – e virando-se para a grifinória marota, ele disse – vem comigo.

Levantou-se de onde estava sentado e guiou Arwen pela mão até o escritório da diretora de sua casa. Ela não sabia o que estava acontecendo ou o que ele pretendia levando-a para o escritório da professora de herbologia, mas não questionou. Apenas deixou-se guiar.

Ao parar na porta da professora, Chris se pronunciou.

– Acho melhor você esperar aqui um instante, já volto. – e bateu na porta, que se abriu, mostrando uma sorridente professora, convidando-o para entrar.

Arwen recostou as costas na parede fria de pedra e escorregou até se sentar no chão. Fosse o que fosse que estivesse acontecendo lá dentro, ela tinha certeza que lhe dizia respeito, por isso esperaria até que fosse convidada a entrar também.

Minutos mais tarde, a porta se abriu e a professora Sprout a chamou.

– Potter, querida, esse casal aqui veio até Hogwarts para conhecê-la. – a professora falou, introduzindo o casal – Eles são os pais do seu amigo, o Sr. e a Sra. Storm.

 

Por Arwen Potter

 

Nota explicativa:

Contos inacabados é uma série de posts que na ocasião em que foram escritos, em 2007, estavam bem adiantados em relação ao andar da história. Mas antes que pudessem ir ao ar, o site acabou entrando no longo hiatus de seis anos, e quando voltamos, optamos pelo reboot, e o plot inicial que desenvolvíamos foi reformulado. Muitas dessas coisas já não existem, mas outras serão reaproveitadas, com toda certeza. <3

Contos inacabados – Dangerous

Hold on tight
You know she’s a little bit dangerous
She’s got what it takes to make ends meet
The eyes of a lover that hit like heat
You know she’s a little bit dangerous

Alguns dias se passaram desde o fatídico episódio na torre de astronomia, na pequena festa de confabulação marota. Episódio estranho, na qual Arwen foi alertada para o fato de Josh Belmont estar disputando sua atenção com o recém chegado lufa lufano, Chris Storm.

As marotas se dirigiam alegremente rumo à faia beira-lago, na esperança de continuarem seus estudos para os NOMs. Ultimamente estava bastante difícil conseguirem se concentrar nos exames, sempre programavam estudar juntas e no fim das contas, algo acontecia e ninguém estudava nada. Elas conversavam e riam animadas, caminhando contra o vento e sob o céu cinzento de Hogwarts, quando um setimanista lufano as vislumbrou ao longe. Os lábios de Chris sorriram involuntariamente. Não planejara encontrá-las, mas ao vê-las, não pode conter o ímpeto de ir até elas e agradecer pelo convite e pela reunião animada de outro dia.

Caminhou a passos largos, quase correndo, na tentativa de alcançá-las. Ao se aproximar, anunciou que estava por perto.

– Bom dia, senhoritas! – ele sorriu amplamente para as três – Como têm passado? Ainda não tive oportunidade de agradecer apropriadamente pela festa na torre de astronomia…

Dani Lupin encarou o recém chegado com um sorrisinho descarado, olhando de esguelha para a amiga orelhuda, e depois para Alexis.

– Olá, Storm! Não precisa agradecer, foi um prazer recebê-lo. Estávamos indo para o lago estudar, faz eras que não conseguimos progredir no nosso cronograma para os NOMs.

– Entendo o que dizem, afinal estou em ano de NIEMs… – ele comentou, ainda sorrindo marotamente.

– Mas daí, agora me lembro que combinei de ver umas coisas com Tom, meu noivo, e simplesmente o deixei esperando e vim para cá. Se nos der licença… – e enquanto Dani puxava Irritadinha com ela, completou – Vem comigo, Alexis, o Tom quer que a gente explique pra ele aquele lance do broche comunicador…

– Ei, eu vou também! – Arwen se adiantou. Mais uma vez, os planos de estudo maroto foram por terra.

– Orelhudinha, querida, você pode fazer companhia para o nosso novo amigo, afinal ele veio todo feliz falar com a gente e as duas sem educação aqui não poderão ficar para o papo. Daqui a pouco a gente se encontra no salão, viu? Vamos indo e depois você encontra a gente.

E as duas saíram, deixando Chris e Arwen a observá-las se afastando.

– Isso está ficando muito frequente… – a grifinória pensou alto enquanto se virou para continuar automaticamente, seu caminho até o lago.

– Se importa se eu a acompanhar? – Chris ofereceu – tenho o primeiro horário vago esta manhã também. Prometo estudar quietinho.

A garota virou-se para o rapaz e sorriu.

– Claro que pode, sem problema. Vai ser legal ter companhia.

Os dois caminharam em silêncio, lado a lado, e ao chegarem na beira do lago, sentaram-se e Arwen começou a espalhar seu material de estudo.

– Nossa, quanta coisa – o rapaz falou ao observar a quantidade de pergaminhos que a marota havia separado para estudar.

– Isso é coisa da maníaca da Dani… Corvinais, sabe como é…

Chris observava a menina, sorrindo, enquanto ela ainda ajeitava as suas coisas. Desde que se conheceram, o rapaz tinha que admitir que gostara muito do jeito maluco e divertido dela, e muitas vezes depois disso, o destino os tinha colocado em situações engraçadas, como na noite da festa marota. Porém, ele percebeu que passou a procurar a presença dela sempre que pudesse. Era sempre confortável e divertido conversar com ela, o fazia se sentir bem e feliz. Quando seus pais lhe escreveram perguntando das novidades, ele não pode deixar de mencionar em sua resposta que conhecera uma garota bonita e divertida, e que ele esperava que se tornassem bons amigos. Afinal, ele tinha poucos conhecidos na escola e se sentia muito sozinho, às vezes.

– Hmmm… Arwen? – ele a chamou.

Ela levantou a cabeça de suas tarefas e o fitou.

– Sim? – e vendo-se observada daquele modo, ficou discretamente sem graça.

– Bom, é que… – o rapaz continuou – bem, você sempre se esparrama assim pelo chão? Quando te conheci, praticamente pisei em cima de você, outro dia na torre de astronomia você também preferiu ficar sentada no chão do que nas cadeiras como os outros, e agora, está sentadaa no chão outra vez…

Ela caiu na gargalhada e ele sorriu. Era gostoso vê-la rindo daquele jeito, e o contagiava também. Logo os dois estavam aos risos.

* A música que dá o título desse post é Dangerous, do Roxette.

Nota explicativa:

Contos inacabados é uma série de posts que na ocasião em que foram escritos, em 2007, estavam bem adiantados em relação ao andar da história. Mas antes que pudessem ir ao ar, o site acabou entrando no longo hiatus de seis anos, e quando voltamos, optamos pelo reboot, e o plot inicial que desenvolvíamos foi reformulado. Muitas dessas coisas já não existem, mas outras serão reaproveitadas, com toda certeza. <3

Uma estranha novidade

“Desde o começo eu já sabia, por isso, não sinto tristeza.

Aos poucos, parece que começo a contar os números”

Uma sonserina de cabelos ruivos mantinha os olhos presos a um livro de capa negra, intitulado em letras prateadas. Heather estava há horas lendo aquele diário, cujas histórias ficavam mais interessantes à medida que a pequena revirara as páginas. Pertencera ao seu avô, assassinado brutalmente quando a garota ainda era uma criança. Ele era uma pessoa calma, porém não dispensava uma aventura.

A garota desviou os olhos ao vislumbrar um garoto que se aproximava discretamente. O rapaz tinha cabelos negros, a franja caia-lhe sobre os olhos, dando a ele uma postura atraente. O garoto, descendente de japoneses, era amigo da ruiva desde o primeiro ano dela em Hogwarts.

Heather fechou o livro, guardando-o na bolsa. Cruzou os braços, observando-o chegar mais perto e se sentar ao lado da moça. A ruiva não disse nada, apenas sorriu, esperando que o outro falasse.

– Bom dia Heather. – Ele sorriu, depositando um leve beijo sobre a bochecha da mesma.

– Bom dia Daisuke, o que me conta de novo? – A moça descruzou os braços.

O rapaz deu uma rápida olhada ao redor do Salão Comunal, para ver se não havia nenhum fofoqueiro por perto.

– Eu, bem… Sabe a Lauren McClound, amiga de sua prima Emilly?

Heather pensou um pouco.

– Sei… Uma loira que anda com um grupinho de amigas… – Ela tentava lembrar-se de mais detalhes.

– Essa mesma! Eu estou… Namorando-a. – Deu um sorriso bobo.

Heather ficou boquiaberta. Como um rapaz tão inteligente e simpático poderia namorar uma patricinha burra e que vivia rodeada de garotos? A moça era bonita, isso a ruiva assumia sem problema algum, mas era um dos tipinhos populares e desprezíveis de Hogwarts.

– O que? Não acredito Daisuke… – Ela mexeu a cabeça de um lado para o outro, em forma de desaprovação.

– É sério Heather, ela é linda e maravilhosa. – Ele encarou a ruiva nos olhos, enquanto pensava na moça.

– Mas, mas… Vocês se odiavam! – Lembrara-se do dia em que a loira jogara um balde de água gelada no amigo.

– Ta, eu sei. Mas começamos a nos conhecer e eu percebi que ela é muito sincera e meiga.

A ruiva tentava engolir aquilo. Só poderia ser brincadeira. Daisuke namorava uma garota que Heather odiava. Claro que a relação dela com o asiático era apenas amigável, mas logo logo a loira iria proibi-lo de conversar com ela.

Não disse nada, apenas tentava imaginar-se longe do amigo. Daisuke era uma das poucas pessoas que ela mantinha uma incomensurável linha de amizade e confiança. Não queria deixar de conversar com ele, teria de fazer alguma coisa.

O pior é que a loira também era sonserina, isso tornaria as coisas mais complicadas para o lado da ruiva.

– Heather? – Daisuke cutucou a amiga de leve no braço.

-Ahn? – Ela se assustou, deixando os pensamentos se perderem em sua mente.

– Vamos dar uma volta? Não podemos desperdiçar um domingo tão bonito… E frio.

Ela fez um sinal positivo com a cabeça, levantando-se da poltrona. Não fazia diferença para a moça estar no Salão Comunal ou nos terrenos de Hogwarts. O frio era o mesmo.

Enquanto andava ao lado de Daisuke, a moça de vez em quando arriscava olha-lo um pouco. Nunca havia reparado como ele era bonito. Seus traços eram marcantes, e a pele branca contrastava perfeitamente com seus cabelos lisos e negros.

Sorriu ao lembrar-se de quantas coisas passara ao lado do amigo. Os passeios à Dedosdemel, o Natal do quarto ano, o jantar de noivado da irmã dele… Enfim, eram reminiscências demais para se esquecer.

“O que está acontecendo com você Heather?” A moça parou.

– Ruiva? – O amigo puxou-a.

– Ah, não é nada… – Ela sorriu de canto, continuando a caminhar.

O rapaz jogou um olhar desconfiado para a moça, enquanto os dois seguiam para fora do castelo.

*.*.*.*.* ~ *.*.*.*.*

PS: O trecho ao topo da Fanfic foi retirado da música D.L.N., da banda japonesa the GazettE.

Feitiço conjurado por Accio Staff às 19:28 h

A elfa e a vampira – final

Anna entrou na sala de DCAT alguns instantes antes do professor começar sua aula, que alguns consideravam desnecessariamente negra demais. Sentou-se em uma carteira sozinha. Os livros que tinha ocupavam o outro assento e insinuavam acertadamente que a sonserina não queria companhia naquela aula. Ignorando o fato de o professor ser o diretor de sua casa e estar falando sobre maldições e feitiços defensivos, a morena de olhos verdes começou a escrever algo aleatório no pergaminho. Como um poema, ou uma crônica talvez. Não tinha passado do primeiro parágrafo quando sentiu como se um fantasma tivesse passado por ela. Tremeu involuntariamente. Procurou entre os alunos alguém que talvez tivesse notado o que tinha acabado de acontecer. Foi quando deu de cara com uma morena da grifinória, de orbes castanhas que a observava pelo canto dos olhos, de maneira muito sutil e quase que incessantemente.

Arwen Potter examinava à distância a garota pálida que julgava ser a causa do mal estar que sentia em todas as aulas conjugadas com a Sonserina. Fazia suas anotações sobre a matéria quase sem perceber, às vezes mal olhando para o pergaminho em sua carteira. Dentre muitas das coisas que achava ser fruto da sua imaginação deveras fértil, atribuir aquela sensação estranha à novata desconhecida não parecia ser mais um dos seus exageros. O anel de Lórien não deixava dúvidas sobre o pressentimento, queimando o dedo anular esquerdo da menina enquanto provocava rodopios leves em sua cabeça e um frio gélido ascendia pela espinha dorsal da semi-elfa. Quase hipnotizada, parou de mover sua pena e seus pensamentos voaram dali para o Madame Puddifoot, pairando exatamente no momento em que conversava com o professor Lupin e recebia os recortes antigos de jornal.

Ela os tinha guardado com cautela, apesar de aparentemente haver desistido de bancar a Marota Holmes. De súbito, sentiu uma chacoalhada de leve trazendo-a de volta ao mundo real. Era Alexis, que percebera o “transe” da amiga.

– Tá tudo bem? – perguntou baixinho.

– Tá. – respondeu monossilábica, ainda tentando juntar os fatos como num quebra-cabeças. O que o focinho tinha a ver com a tomada? Por que foi levada até aquela lembrança? Meneou a cabeça incrédula, ainda se sentindo estranha, e agora tentando evitar olhar a sonserina.

Anna notou que a grifinória que a observava desviou o olhar dela e respondia algo a sua companheira de carteira. Estreitou os olhos esmeraldados. O que é que aquela garota tinha que a deixava tão receosa? Seria talvez algum poder superior? Saberia ela do segredo que Anna guardava? Meneou a cabeça negativamente afastando esses pensamentos para longe. Não era possível. Foi quando a voz pro professor Snape cortou seus devaneios ao dirigir-se a ela.

-Senhorita Beckinsale – ele chamou calmamente, mas com um olhar furioso – Não costumo ter que chamar a atenção de alunos da minha própria casa, entretanto terei que fazê-lo se não me responder corretamente à pergunta que lhe farei.

Anna nada retrucou. Fitava o professor calmamente. Sentia vários olhares em si. Professor Snape repreendendo alguém da sua própria casa? Não, isso definitivamente não era normal.

-Eu acabei de falar que não existe maldição que possa ressuscitar os mortos. Entretanto há uma exceção a regra. A senhorita saberia nos dizer qual é?

-Sim – ela respondeu com uma frieza e calma que chegavam a ser penetrantes. – Entretanto não creio que se deva referir-se a isso como uma “maldição que possa ressuscitar os mortos”. Eles se tornam zumbis. Nada mais que fantoches comandados por aqueles que conseguem executar o inferi com perfeição.

A sala ficou em silêncio aguardando a resposta do professor. Ele curvou o lábio no que acreditaram ser um meio-sorriso e prosseguiu sua aula. Todos então voltaram a suas anotações habituais.

– Inferi? – Arwen murmurou baixinho para Alexis ao seu lado – Ele não falou nada sobre isso. Como ela sabia?

– Vai saber… – a outra respondeu no mesmo tom baixo, mas ainda assim displicente – Ela é muito estranha. Viu como é pálida? Tá precisando tomar um solzinho hein?

– Olha só quem fala! – retrucou Potter com os cabelos negros formando uma cortina sobre seu rosto – A nua maldizendo a pelada!

Depois de um resmungo baixo e ininteligível da srta. Dumbledore e de umas poucas risadas abafadas não contidas vindas de si mesma, a grifinória de orelhas pontudas descortinou o rosto, ajeitando as madeixas negras atrás das orelhas. Fingia anotar a aula, mas seus pensamentos voavam outra vez. Mas não para o passado, nem para algum lugar distante. Estava ali mesmo, nas masmorras do morcego Snape, fixo na garota estranha. Não a encarava mais, porém não conseguia desviar a mente dali.

“Conhece bem artes das trevas, pelo que vejo… Quem será e de onde ela vem?” – pensava, enquanto rabiscava arabescos e bolinhas no pergaminho. “Muito estranho… mas não tenho nada com isso, a vida alheia não é da minha conta.”

“Claro que é! A dela é sim!” – respondia uma vozinha lá dentro da sua cabeça – “Se não fosse, o anel não arderia em sua mão, sua tola!”

Suspirando fundo, tentando se conter, olhou novamente de esguelha para a menina mais adiante. Prosseguiu seu debate consigo mesma.

“Nem tudo o que reluz é ouro e nem tudo o que arde no meu dedo é coisa do anel ou seja lá do que for de magia élfica. Se fosse assim, quantas outras vezes meu dedo teria queimado? Estou ficando louca, definitivamente, estou discutindo comigo mesma! Que absurdo!”

– Pois então, srta. Potter, menos 20 pontos para a Grifinória por estar falando sozinha. Não consegue segurar a língua dentro da boca nem para conversar com seus botões?

Ela se ajeitou na carteira, olhando sem graça para o professor diante dela e da amiga. Alexis olhava para o lado contrário, para não piorar ainda mais a situação.

– Já que está tão bem no assunto que pode se dar ao luxo de conversar sozinha, a senhorita poderia me dizer o que pode como se defender de um inferi? Se é que sabe do que estamos falando…

Ouviu um soar de risos da platéia sonserina, menos de duas pessoas ali presentes: Selina Grant e Anna Beckinsale permaneciam sérias, observando a grifinória à distância.

Arwen de fato não fazia a menor idéia de como se defender daquelas criaturas horrendas. Sabia o que eram por alto, já que eram repetidamente mencionados nos panfletos e cartazes do Ministério da Magia. O que aconteceu em seqüência foi tão súbito quanto o mal estar e quanto a discussão consigo mesma. Respondeu segura, como se dominasse o assunto. Ouvia claramente uma voz melodiosa soprando a resposta em sua singela orelhinha. Encheu-se de si mesma e respondeu ousadamente.

– Fogo, professor. – e sentiu os olhos amarelados da marota amiga ao seu lado, encarando-a com ar bestificado – Basta atear fogo em algum lugar para que os mortos-vivos se afastem e nos deixem em paz.

Respirou aliviada, mas sem saber de onde saíra aquilo. Não tinha dúvidas de que não havia errado a resposta. Fixou os olhos vítreos cor-de-mel nos escuros e estreitos do professor, quase com ar de desafio.

– Menos 5 pontos para a Grifinória pela petulância de responder algo à frente da matéria dada.

Alexis abriu a boca para protestar, mas Arwen a beliscou por debaixo da mesa, fazendo com que a companheira se calasse antes de falar. Melhor deixar como estava, perder mais pontos só atiçaria a ira de sua casa contra elas.

Anna estreitou os olhos pela segunda vez na aula. Era por isso então, em grande parte, o motivo da rivalidade entre sonserinos e grifinórios. A sonserina deu ombros para os próprios pensamentos. Era tolice discutir consigo mesma, aquela era uma aluna que não parecia ter nada de excepcional além da inteligência e da beleza. “E das orelhas pontudas” – uma vozinha na sua mente falou suavemente. Anna mordeu o lábio inferior com força quase fazendo-o sangrar. Tinha alguma coisa errada. “Você nunca realmente deu bola pra esses instintos vampíricos antes Anna, não vá dar agora e arranjar confusão logo de cara na escola nova” – ela repreendia-se mentalmente. Enquanto travava uma luta particular em sua mente não notou que os lábios já tinham começado a sangrar e que o som da voz do professor parecia estar se afastando cada vez mais. Piscou repetidamente. Via vultos pelo canto dos olhos. “E essa agora…” Logo os vultos começaram a se multiplicar e quando, finalmente uma gota de sangue pingou no pergaminho ela parecia ter sido engolfada pela escuridão. Tinha perdido a noção do tempo.

Olhou ao seu redor. Novamente os olhares da sala estavam em si.

-Senhorita Beckinsale, a senhorita está bem? – o professor perguntou.

Anna acenou afirmativamente com a cabeça. Não sabia o que tinha acontecido. Via alguns pingos de sangue no pergaminho que deveriam ser as anotações da aula. Passou a mão nos lábios limpando o restante do sangue. Professor Snape pigarreou e todos se voltaram para ele.

-Agora, já que a senhorita Beckinsale pôde voltar a si podemos dar prosseguimento à aula – ele falou em um tom desafiador. Ninguém ousou protestar.

Mais tarde, Anna fez uma anotação mental, de perguntar a Selina que diabos havia acontecido com ela.

Alexis deu um cutucão em Arwen, que agora encarava explicitamente a garota estranhamente bela da casa “rival”. A cena de minutos antes se repetia em sua frente inúmeras vezes – Beckinsale escorregando pela carteira, com os braços pendidos, pescoço amolecido, porém virado para diante, olhos verde-esmeralda muito vivos, mas distantes, perdidos em algum lugar longínquo, fora de si… A pele pálida da garota se transformando em porcelana alva e fria, o sangue sumindo das veias enquanto os dentes dilaceravam o lábio inferior da menina e pintava de vermelho o rosto, as vestes e o material da garota. Um novo arrepio gélido percorreu a espinha da grifinória, que outra vez sentiu o mundo girar, mas conteve-se. Não daria mais motivos para descontos na pontuação da sua casa, nem mais shows para os expectadores de ambas as turmas. Entretanto, a pouca concentração que possuía se esvaiu. A visão da sonserina fora de si se repetia infinitas vezes, como uma tortura.

– Zoreia??? Tá me ouvindo? Acorda, filha de Merlim sem calças, a aula acabou, você vai ficar aí?

Alexis a despertara do seu sono profundo ainda que ela tivesse consciência de que se mantivera acordada o tempo todo. Quanto tempo se passou, não soube avaliar de imediato. Irritadinha a olhava cabreira, enquanto Arwen verificava se a sonserina novata estava bem. Viu Beckinsale sentada ainda em sua carteira, recolhendo muito devagar seu material. Teve ímpeto de se levantar e dirigir-se até a garota, mas repreendeu-se de novo. Precisava sair das masmorras o mais rápido possível, precisava de ar, precisava de sol, luz, calor… Necessitava urgentemente respirar. Mas os dias sombrios que pairavam sobre todos não permitiriam nada além de oxigênio para restaurar a vitalidade da grifinória, que mais uma vez sentia o peso do anel herdado de sua mãe. Saiu em passos apressados, quase correndo do subsolo da escola, deixando Alexis para trás.

Por Arwen e Anna Valerious.