A little respect

O sonserino entrou na Sala Comunal ruminando e pisando forte. O que deu nela afinal? É verdade que quando decidiu abordar Alexis de maneira mais direta, ele sabia que levar um fora era um risco (embora ele realmente não esperasse por isso dessa vez). Mas aquilo passara dos limites. Quem ela pensava que era para lhe tacar um pudim na cara?

A humilhação que passara no jantar, somada a inevitável sensação de frustração o estavam enlouquecendo. Ele entrou no chuveiro para lavar os resquícios de doce e aproveitar a deixa de solidão para colocar a cabeça em ordem. Do lado de fora do banheiro do dormitório, ouviu a voz conhecida de Gabe chamando por ele.

– Daryl? Você está bem, cara?

Purple aumentou o fluxo de água do chuveiro e afundou-se um pouco mais na banheira, sem responder. Agradecia a preocupação do amigo, mas naquele momento ele precisava ficar sozinho para pensar e se controlar. Aliás, mais do que a reação de Irritadinha, perder o controle era o que realmente o estava incomodando. Ele que sempre mantivera o mais absoluto controle sobre o que sentia e fazia, havia perdido as estribeiras. Isso definitivamente não era um bom sinal.

I try to discover a little something to make me sweeter
Oh baby refrain from breaking my heart
I’m so in love with you, I’ll be forever blue
That you give me no reason
Why you’re making me work so hard?
That you give me no, That you give me no
That you give me no, That you give me no
Soul, I hear you calling oh baby please
Give a little respect to me

No começo, estava claro para ele que a sua motivação para ficar na cola da garota era o comportamento arredio dela. Aquele jeito explosivo e a postura óbvia de quem não se interessava em garotos e romances, tão contrária à natureza das meninas de sua idade, o haviam de certa forma, desafiado. Claro que além disso, Alexis é uma garota bonita, legal e inteligente, o que completava o pacote, mas o estopim que disparou o interesse dele definitivamente foi o jeitão “estou nem aí” dela de lidar com essas coisas. Mas até este ponto da análise, ele não teria motivos para perder a cabeça, teria? Afinal, já levara outros foras antes, e até alguns tapas quando ele era mais afoito, e não se recorda de ter se descontrolado daquela forma.

And if I should falter would you open your arms out to me
We can live love not war and live at peace with our hearts
I’m so in love with you, I’ll be forever blue
What religion or reason could drive a man to forsake his lover
Don’t you tell me no, don’t you tell me no
Don’t you tell me no, don’t you tell me no
Soul, I hear you calling oh baby please
Give a little respect to me

Enquanto a água continuava caindo sobre os cabelos do moço, as idéias pareciam clarear. Só havia um motivo para que ele agisse de maneira tão intempestiva. E ao contrário do que se esperaria num momento daqueles, quando ele estava com tanta raiva, ele sorriu. A vaga idéia de gostar de alguém sempre o assustara e ele achou que isso jamais fosse acontecer. Mas agora que o fato dançava diante de si, ele estava o estava achando muito interessante. Era isso, tão óbvio e ululante que até o Storm havia percebido. O fato era bem o contrário do que ele dissera tão à queima roupa para a Irritadinha. Não era ela quem estava caidinha por ele. Era ele quem estava derrubando um pequeno penhasco pela grifinória. E, longe de achar que isso seria um grande problema, o rapaz sentiu um novo ânimo. Agora ele tinha uma motivação real e nobre para persistir na sua empreitada.

 

Título e trechos da música A little respect, do Erasure. Um clássico dos anos 80. :D

 

Arrogance

Continuação do post Delirious.

Do outro lado do salão, Daryl Purple terminava calmamente a sua refeição. Ele havia trocado as vestes antes do jantar e se preparou com esmero, visando finalmente acertar seu alvo. Ao fim de seu jantar, o bem vestido e perfumado rapaz levantou-se de sua mesa e seguiu desfilando salão afora até a mesa da Grifinória. Ao notar que o sonserino se levantara antes do fim da refeição, a população feminina da escola passou a vigiar os passos do garoto. E ao alcançar a mesa vermelha e dourada, praticamente toda a escola virou sua atenção para Purple.

– Boa noite, princesas! – o sonserino cumprimentou galantemente primeiro Arwen, pousando um beijo cavalheiresco na mão da garota, e a seguir, Alexis, demorando-se um pouco mais no beijo e no olhar para a menina – Boa noite, Storm – ele cumprimentou o colega com um aceno de cabeça – Alexis, minha tigresa, que surpresa você por aqui!

A garota olhou para os lados para ter certeza de que estava no castelo de sempre e o encarou confusa, piscando os olhos amarelados algumas vezes.

– Hã? Surpresa por quê?

Arwen baixou os olhos para o seu próprio prato de sobremesa, fingindo não ver a cena. Chris fez o mesmo.

– Maneira de dizer, minha querida – Daryl disse enquanto se acomodava espremidamente ao lado de Irritadinha, e já passando o braço em torno de seus ombros – Eu preciso de uma palavrinha em particular com a senhorita, seria possível? Pensei em convidá-la para um passeio nos jardins, tenho um assunto de seu interesse para tratar.

Alexis por um instante, pareceu não entender direito o que o menino propusera de maneira tão clara e objetiva. Passear nos jardins depois do jantar? Seria pra ajudar na digestão? Por fim, percebeu o braço de Purple envolvendo seus ombros e tratou de tirá-lo de lá. Sem pensar muito, ela respondeu:

– Parando. Já. Não sei o que se passa nessa sua sua cabeça, jovem mancebo, mas acho que qualquer que seja o assunto que queira tratar comigo, não precisa ser nem em particular, nem nos jardins, oras. E preciso dos meus ombros de volta, tenho que mantê-los pras aulas de salsa, então faça o favor de tirar as mãos daqui, sim. – ela finalizou colocando a mão do garoto, antes em seu ombro, agora em cima da mesa.

As coisas não estavam saindo como Daryl planejara. Se bem que, tendo em vista as amostras anteriores do comportamento da Irritadinha, ele deveria ter esperado por isso. No entanto, os últimos dias haviam renovado suas esperanças de um desfecho feliz e a curto prazo, afinal ela estava mais receptiva e amena em sua presença, e ele sinceramente não esperava que sua noite se encerrasse ali, sem nem mesmo ter começado. Inesperadamente para ele, que costuma ter sempre tudo sob o mais absoluto controle, Purple começou a sentir uma ponta de irritação em relação a Alexis que ele não experimentara antes. Sempre levou os foras da menina na esportiva, mantendo o bom humor e partindo para o plano seguinte. Ele não entendia porque estava tão incomodado dessa vez, mas a verdade é que a frustração estava levando a melhor e deixando-o muito mais impulsivo do que gostaria. Foi nesse clima tenso que ele manteve a conversa, agora praticamente em tom de afronta.

– Acho que a donzela arredia não gostaria que eu dissesse o que tenho para dizer mediante platéia. – Purple falou, encarando Dumbledore com o olhar faiscando, olhar que a garota retribuiu do mesmo modo: altivo, desafiador e agora, zangado.

– Ah, é? E que tipo de segredinho o senhor pavão teria nas mangas que não poderia ser dito mediante platéia? Quer saber, seja lá o que for, segredinhos não me interessam, por isso não vejo a menor necessidade dessa conversa. Portanto, dê meia volta e retorne para a sua sobremesa, na mesa de sua casa, de onde você não deveria ter saído hoje.

 

Continua…

Lembranças de uma cobra no cativeiro

“Era uma vez uma bela dama de pele branquíssima que vivia no meio de campo floral com altíssimas árvores que pareciam cutucar os céus. Ela possuía sete pequenos amiguinhos que possuíam uma personalidade forte e marcante que os distinguiam dos demais.

Esta donzela, como assim a chamaremos por enquanto, sonhava com um rapaz lindo, alto e belíssimo que a salvaria do mundo e a tornaria uma princesa das mais conhecidas do mundo. Talvez ele apareceria em um cavalo branco cavalgando pelas encruzilhadas daquele campo e a salvaria daquela triste realidade que era viver com pássaros cantando, árvores com frutos frescos e uma bruxa à espreita.

Mas todas as expectativas da jovem moça foram superadas. Um rapaz loiro, de pele branca como a neve e trajando um sobretudo tão negro quanto a escuridão – mas com detalhes em verde-esmeralda – entrou em sua casa. Ele era bem mais belo que qualquer príncipe que ali poderia aparecer.

– Olá, jovem Senhora. Vejo aqui que você possui sete pequenos amiguinhos em sua casa – Disse aquele misterioso e belo rapaz.

A jovem atravessou o cômodo e aproximou-se do belo humano que ali estava. Suspirou e então respondeu:

– Não poderia estar mais encantada do que recebê-lo, meu jovem lind… digo, meu jovem. – Falou desconcertada. Sua pele branca como as nuvens ganhou contornos avermelhados da timidez e então se afastou antes de completar: – Por qual motivo este tão belo e jovem rapaz estaria interessado?

O jovem pigarreou e tirou a sua cartola da cabeça (que até então eu não havia descrito aqui por não ter lembrado que aquele jovem e elegante rapaz usava uma cartola). E então, balançando-as nas mãos bem arrumadas em luvas brancas, sorriu.

– Gostaria de comprar um deles.

A jovem assustou e levou a mão até sua boca, que soltou um grito agudo que fez os galhos da árvore balançar e os passarinhos voaram com um presságio de mau sinal.

– Nunca, jamais, venderei um de meus amigos! – Indignou-se, fitando o rapaz com um olhar desconfiado.

O belo rapaz afastou parte de seu sobretudo e colocou a mão direta no bolso lateral de sua calça. Ele retirou algumas moedas brilhantes que reluziram à luz solar. Ouro. Colocou-os sobre o balcão e sorriu.

– Acredito que isso seja o suficiente para os gatos, minha bela donzela.

A jovem que estava prestes a morder uma maça, deixou o alimento cair ao chão e rolar pelo chão da sala. Ao longe o rapaz imaginou ter ouvido um grito agudo que poderia ser de uma bruxa ao longe “Você não me escapa Branca, eu voltarei!”, mas ele não tinha certeza se tinha de fato ouvido algo ou era apenas a sua belíssima imaginação, que combinava com todo o resto de seu ser: belo.

– Venha comigo, irei te mostrar onde estão os meus amiguinhos. Você poderá escolher apenas um para levar consigo. Estamos combinados?

– Combinado, minha cara. – O lindo e educado e querido e magnífico jovem fez uma referência e então seguiu a donzela até os fundos da casa.

– Eles estão nessas jaulas. Apresento-lhe zangado, dengoso, soneca e atchim. Você pode escolher entre um deles. Os demais não estão à venda”

– Pode parar essa história aí. – Disse Pansy, que estava largada em um sofá do salão comunal da Sonserina. – Eu tenho certeza que já ouvi essa história, ou parte dela em algum lugar.

Seifer Snakeheart, que estava sentado no sofá em frente à Pansy e a dois outros sonserinos do primeiro ano revirou os olhos.

– Por qual motivo eu inventaria essa história, Pansy? Estou contando da forma mais sincera e real que o fato aconteceu. Agora, se você me dá licença, minha plateia espera a conclusão de minha jornada.

“E então, antes de eu ser brutalmente interrompido pela má educação alheia, eu estava na parte que aquele belo jovem loiro e lindo estava dentro daquela casa com uma jovem donzela de pele branquíssima que ignorou todos os seus sentimentos e, por ouro, resolveu vender seus amigos.

– Eu aconselharia você a ficar com o atchim, ele é uma boa pessoa. – Disse ela, tentando enganar o sagaz e maravilhoso rapaz que olhava atentamente para as jaulas a sua frente.

O jovem aproximou seus olhos dos grandes olhos âmbar da jaula central e os fitou por alguns segundos. Soneca retribuiu o olhar e piscou algumas vezes, mas não desviou. Seus grandes olhos continuaram a encarar o loiro. Pelos próximos dois minutos, que parecem uma eternidade para Branca de Neve, digo, para a donzela em questão, ele decidiu-se.

– Levarei ele. Mas trocarei o nome. Se chamará Reg daqui para frente.

– Não é um bom nome para uma coruja! – Gritou a donzela, que em poucos instantes tirou a jaula da parede e entregou para o rapaz. – Diga-me, caro lindo senhor, poderia ter o prazer de saber o seu nome?

– Snakeheart. Seifer, Snakeheart. – Disse o lindo rapaz. Ele agarrou a jaula das mãos da doce donzela e a deixou em sua cabana antes de sair com sua nova coruja de pelugem branca, deixando a donzela aos suspiros”.

Seifer encarou os olhares atônitos dos pequenos recém-indicados a Sonserina e também vislumbrou o olhar de desconfiança de Pansy, que o encarava.

– E foi dessa forma que eu comprei Rag, a minha coruja. Nesta loja encantada. Dizem que uma bruxa má atacou essa donzela e a colocou em sono profundo. Mas isso eu já não sei mais se é verdade, já que nunca mais vi Branca.

Pansy levantou-se e desamassou as vestes. Passou a mão pelos sedosos cabelos e por fim revelou seus pensamentos:

– Você lembra que nos encontramos no empório momentos antes de você comprar essa sua coruja anciã, não é mesmo?

Seifer corou.

– Esse era Rag I, esta história é da minha coruja mais linda e poderosa, Rag II, que comprei com Branca, parecida com a Neve.

– Sei… – Pansy revirou os olhos e sem falar mais nada disparou pelo salão comunal da Sonserina. Ela jamais entendeu como um tipo daquele foi parar na casa da cobra. Mas tinha mais coisas para fazer, como encontrar Draco Malfoy pelos corredores de forma casual (para ele, já que para ela a intenção era encontrá-lo e jogá-lo na parede feito lagartixa).

Seifer voltou-se para a sua plateia de duas pessoas. Uma jovem menina de longos cabelos loiros até a cintura e um miúdo menino de olhos negros como o universo.

– Agora sumam daqui antes que eu mande Rag picar vocês. Chega de história por hoje.

As crianças levantaram-se e saíram em disparada pelo mesmo caminho onde segundos antes Pansy passou. No sofá do silencioso e vazio salão comunal da Sonserina, Seifer continuava a fazer carinho em sua coruja de estimação.

– Você é ou não é a coruja mais linda de todo o mundo, hein Rag? Não ligue para o que digam, até hoje não me arrependo de adotá-la quando você caiu da árvore e entrou pela minha janela de casa. Mas você sabe como é, você precisa de uma história poderosa para eles temerem você. E afinal de contas, quem aqui já ouviu falar de Branca de Neve? Então essa é a nossa história. A história verdadeira.

Como se entendesse tudo que o sonserino havia dito, Rag bicou suavemente a mão direta do rapaz e soltou um pio de felicidade. Eles estavam bem.